
Cenografias do Avesso – Mostra dos Estudantes
Cenografias do avesso: corpos, territórios e pedagogias do silêncio é a proposta curatorial brasileira para a Mostra dos Estudantes da 16ª Quadrienal de Praga – a PQ 2027, a realizar-se no Palácio das Indústrias (Vystaviste – Exhibition Grounds), em Praga, República Tcheca, de 08 a 17 de Junho de 2027. A iniciativa é viabilizada por meio da iniciativa PQ Brasil, realizada pela Fundação Nacional de Artes (Funarte), vinculada ao Ministério da Cultura (MinC), em parceria com a Grafias da Cena Brasil.
A equipe curatorial brasileira da Mostra dos Estudantes, composta por Cleiton Almeida, Mayara Assis, Mery Horta e Yasmin Coelho, realizará a seleção de trabalhos de estudantes de diferentes regiões do Brasil, que irão compôr a exposição da PQ Brasil em Praga. A seleção das obras acontecerá por meio de convocatória gratuita e aberta que será amplamente divulgada em breve.
O tema geral da PQ 2027 — Absences and Silences as spaces of potential for new scenographic futures — levanta provocações acerca do que foi deixado de fora da cena nos 60 anos do evento. O que esteve ausente, invisível ou inaudível? Para a curadoria geral, esse tipo de reflexão é importante não apenas porque nos leva ao passado, mas também porque prepara o terreno para o futuro.
Em diálogo com o tema da edição, a curadoria de Cenografias do Avesso propõe uma investigação as artes da cena a partir de uma inversão de perspectiva: deslocar o olhar daquilo que historicamente foi centralizado para aquilo que permaneceu à margem — os silêncios, as ausências e os saberes não legitimados como linguagem cenográfica. A proposta compreende que aquilo que foi silenciado não indica falta de produção, mas resultado de processos históricos de apagamento. Nesse sentido, o silêncio deixa de ser ausência e passa a ser entendido como campo de potência, escuta e invenção.
Partindo do contexto brasileiro, a curadoria reconhece que práticas fundamentais de organização do espaço cênico emergem em territórios muitas vezes desconsiderados pelas narrativas hegemônicas: festas populares, rituais, ruas, terreiros e cotidianos coletivos. São nesses espaços, que corpo, objeto, som e ambiente se articulam de maneira indissociável, produzindo experiências performativas complexas e situadas.
Como eixo conceitual, a proposta se ancora na noção de corpo como arquivo e superfície de inscrição de memórias, em diálogo com o pensamento de Leda Maria Martins. A partir dessa perspectiva, emerge o conceito de adereço como campo expandido da cenografia. Longe de operar como elemento decorativo, o adereço é compreendido como extensão do corpo, como uma prótese — uma tecnologia sensível que produz espacialidades, desenha movimentos e ativa relações entre memória, materialidade e território.
A Mostra dos Estudantes da PQ Brasil em Praga – República Tcheca, reunirá trabalhos artísticos que contemplam múltiplas linguagens de dentro e fora da cena, em que as diversas formas de artes visuais são aplicadas às artes performativas — instalações, vestimentas, objetos, performances, videoartes e paisagens sonoras. As obras partilham o interesse em ativar o corpo como espaço cenográfico e em tensionar as fronteiras entre corpo e espaço, arte e vida, visibilidade e apagamento.
A proposta de curadoria do Cenografias do avesso se configura como um campo de experimentação. A exposição é concebida como um ambiente expositivo-performativo em que presença e ausência, som e silêncio, matéria e memória coexistem em permanente tensão. A proposta também afirma uma dimensão pedagógica: o processo curatorial se estrutura de forma coletiva e formativa, incluindo ações como oficinas, debates públicos e acompanhamento dos artistas participantes. Nesse contexto, a curadoria é entendida não apenas como seleção, mas como prática de escuta, mediação e construção de conhecimento.
Ao integrar a Prague Quadrennial, a proposta inscreve no debate internacional perspectivas oriundas do Sul Global, destacando a produção brasileira como um campo plural, atravessado por corporalidades diversas, saberes afro-indígenas, práticas periféricas e tecnologias de criação que emergem da relação entre corpo, escassez e invenção.
Esta proposta não pretende representar o Brasil como imagem estável.
Propõe, antes, ativar um território.
Um território onde a escassez se transforma em invenção.
Onde o corpo é tecnologia.
Onde o que foi silenciado retorna não como eco, mas como força.
Nesse deslocamento, a curadoria de Cenografias do avesso não busca oferecer respostas, mas ativar uma questão: o que pode a cenografia quando escuta aquilo que foi historicamente silenciado?
